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Notícias - Brasil

09 de Junho de 2019 ás 18:00:22

Professora de 45 anos entra no 6º mês de gestação dos netos gêmeos em Serrana, SP

Para realizar sonho da paternidade do filho homossexual, Valdira das Neves engravidou por inseminação artificial. Nascimento de Maria Flor e Noah está previsto para setembro.

Foto por: Valdinei Malaguti/EPTV

Aos 45 anos, a professora Valdira das Neves vive a expectativa do sexto mês de gestação dos gêmeos Maria Flor e Noah, em Serrana (SP). Ela carrega no ventre os netos, fruto da produção independente do filho, o estudante de enfermagem Marcelo das Neves Júnior, de 24 anos.

O jovem assumiu a homossexualidade aos 18 anos e sempre teve vontade de ser pai. Solteiro e sem vislumbrar um relacionamento amoroso duradouro, encontrou na mãe a chance de realizar o desejo da paternidade e ajudá-la a superar a perda de uma filha recém-nascida.

Há quatro anos, Valdira engravidou espontaneamente. No entanto, aos sete meses de gestação, sofreu complicações e foi necessário fazer uma cirurgia de emergência para tentar salvar Helena. A menina não resistiu, mas a professora manteve viva a vontade de ser mãe novamente.

A família procurou um centro especializado em reprodução humana assistida, em Ribeirão Preto (SP). Durante as várias consultas para entender o processo, Marcelo Júnior manifestou a intenção de ser pai e levou à mãe a ideia da “barriga solidária”, conhecida anteriormente como “barriga de aluguel”.

No Brasil, uma resolução elaborada pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) estabelece que a mulher candidata à barriga solidária deve ter parentesco consanguíneo até o quarto grau com um dos parceiros interessados no processo.

“Era um sonho desde que assumi minha orientação sexual. Naquela época, algumas amigas minhas se ofereceram para ser minha barriga de aluguel, mas nunca foi uma ideia concreta. A única pessoa que faria isso por mim mesmo é a minha mãe. Na realidade, foi um sonho dela e, quando saímos da clínica, realizamos o meu sonho”, diz o jovem.

A professora não hesitou em aceitar a proposta do filho. “Eu aceitei rapidamente, mais do que depressa. Eu disse: estou pronta, vamos fazer. Não me deu medo em hora nenhuma.”

Segundo a médica Camila Teles Vidal de Paula, é muito comum que casais homossexuais busquem a reprodução assistida por meio da barriga solidária. Também é comum encontrar mulheres que optaram pela produção independente, mas o caso de Marcelo Júnior é considerado raro.

“Foi algo novo até para nós. Segundo o nosso conhecimento, é o primeiro caso no Brasil.”

A médica explica que os espermatozoides de Marcelo Júnior fecundaram óvulos de doadoras anônimas. A legislação não permite que receptor e doador tenham conhecimento um sobre o outro.

“A gente vai buscar as características físicas semelhantes. A indicação das doadoras compatíveis é feita pela clínica e o paciente, neste caso, que vai receber a seleção, vai avaliar se é viável ou não aceitar a doadora proposta. Se ele der o ok, a gente dá o andamento à formação dos embriões”, explica.

Foram três tentativas sem sucesso até que, no início do ano, mãe e filho tiveram uma surpresa durante o ultrassom para saber o resultado da fecundação. Por causa da idade dela, Valdira e Marcelo Júnior já estavam cientes que era a última tentativa.

A imagem no monitor naquele dia materializou, finalmente, o sonho da gravidez. Mas eles não esperavam que, ao invés de um, teriam dois bebês.

“O momento mais emocionante foi quando a gente descobriu que eram gêmeos. Nós estávamos fazendo o ultrassom com a doutora Camila. Quando ela colocou o aparelho, eu identifiquei que eram dois sacos gestacionais. Eu gritei: doutora são dois? E ela disse: isso mesmo, você descobriu primeiro do que eu”, lembra o estudante.

No sexto mês de gestação, Valdira é acompanhada por uma equipe multidisciplinar. Segundo a médica, por ser uma gravidez de alto risco, um pré-natal específico é determinante para garantir que ela tenha boa saúde, enquanto os bebês se desenvolvem no útero.

“É uma gestação muito diferente por saber que são os meus netos, não meus filhos. Às vezes, eu penso que são meus filhos também. Tem um sentimento de filho misturado com neto. Estou carregando os filhos dele e, para mim, a satisfação é muito grande. É uma emoção diferente”, diz a mãe-vovó.

No início de junho, pai, avó e madrinhas puderam ver, pela primeira vez, os rostinhos dos bebês pelo ultrassom. A emoção tomou conta da sala e animou ainda mais a família, ansiosa pela chegada dos gêmeos.

“Desde o dia que eu vi a fotinha dos embriões, eu já amava eles. Agora, é um amor infinito, um amor inexplicável”, diz Marcelo Júnior.

O estudante quer que os filhos cresçam sabendo desde o início sobre a concepção. Em casa, até aqui, todos acordaram que Valdira será chamada de vovó.

“Eu pretendo passar isso para eles da forma mais natural possível. Eles vão ter a figura materna, que no caso seria a minha mãe. Não é a mãe biológica, mas é uma mãe-vó, uma mãezona. Ela é tudo de bom pra mim e vai ser melhor ainda para eles.”

Marcelo Júnior diz que as reações das pessoas quando tomam conhecimento sobre a barriga solidária são positivas.

“Não recebemos nenhuma crítica. Mas, se elas vierem, estamos preparados para dialogar.”

O nascimento de Maria Flor e Noah está previsto para setembro.

 

Fonte: G1 Ribeirão Preto e Franca

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